A notícia mais importante do inacabado final de semana vem manchada pela tristeza, resultado de um desastre que dificilmente terá esclarecida a sua verdadeira causa, a exemplo de tantos outros que reservaram dúvidas e constrangimentos para autoridades e pessoas consideradas comuns.
Refiro-me ao fatal acidente aéreo ocorrido em Lajes (SC), quando o que deveria ser uma festa transformou-se em tragédia, vitimando fatalmente o piloto da Força Aérea Brasileira, Anderson Amaro Fernandes, de 33 anos, que teve escolhida a Sexta-feira Santa como epílogo de sua trajetória vitoriosa como membro da Esquadrilha da Fumaça, justamente numa manobra cuja denominação (trevo) deveria dar sorte, se acompanhasse as tradições presentes no dia-a-dia do povo brasileiro, impulsionado por muitas "mandingas" que preenchem o imaginário existente na cultura popular. Desta vez o rasante da aeronave T27 Tucano, construída pela EMBRAER, que retornaria aos céus quando alcançasse a perigosa distância de pouco mais de 50 metros do solo não deu certo, encerrando uma carreira com mais de 3.500 horas de voo de um profissional experiente e de reconhecida capacidade.
A Esquadrilha da Fumaça, criada em 1952, que já fez mais de 2600 apresentações em todo o mundo, é motivo de orgulho para todos nós, simples mortais, que sempre nos mostramos extasiados com o espetáculo maravilhoso de máquinas que desafiam a gravidade e enchem de apreensão e alegria todos os espectadores. Responsável pela construção de sonhos nas crianças que se deslumbram com o entrelaçar de aviões poderosos e frágeis no céu, soltando fumaça e passando mensagens que nos enchem de otimismo e contentamento.
Relembro das oportunidades em que apreciei a beleza do espetáculo, e que certa vez, no Aéro Clube de Belém, rompi a barreira de soldados da Aeronáutica para tocar no uniforme de um dos consagrados homens que, minutos antes, proporcionara um maravilhosos espetáculo no ar, comemorando o aniversário da cidade.
Aquele momento inesquecível ficou marcado para toda a minha vida, porque concretizou a vontade de estar próximo de um homem diferente, herói de carne e osso, misto de homem e Deus, símbolo supremo da capacidade criativa do ser humano. O sorriso que recebi como recompensa permanece guardado em minha memória, ainda que não tenha conseguido abiscoitar qualquer lembrança material que preenchesse a galeria de humildes troféus que guardei ao longo de toda a minha vida.
A cortina de fumaça criada com a explosão da aeronave conduzida por Anderson Fernandes me trouxe lágrimas e um profundo sentimento de pesar, porque representa outro fato que me acompanhará por muito tempo, porque é uma triste marca na história de uma corporação que registrou apenas quatro acidentes e duas mortes em sua história.
A fatalidade que cerca o episódio relembra outros grandes nomes cujo desaparecimento foi motivo de comoção nacional, a mesma que dominou aos que assistiam à apresentação em Lajes, e que lastimaram aquele momento trágico. Presto minha solidariedade à família e amigos, reconhecendo que a falha mecânica ou humana que enlutou o país, não apagará o sofrimento final do jovem Anderson, cuja experiência deve ter sido fundamental para que tentasse reverter a situação que lhe ceifou a vida.
A morte não representa o fim, nós cristãos temos que acreditar que a perenidade de nossas obras ocorre, quando construímos o bem em nossa permanência terrena, razão pela qual, nesta madrugada, não colocarei a cabeça no travesseiro com a mesma serenidade de sempre, porque ainda que reze insistentemente pelo herói que parte, guardarei a dor sentida por ele no momento da partida, imaginando a vontade de vencer o invencível, percebendo que a peça pregada pelo destino seria inevitável. Espero que a minha dor seja também o lamento de todos os brasileiros que acabam de perder um herói.
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